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abril 13, 2014

acerca da necessidade de perder [marguerite duras]

"    Ela caminha, escreve Peter Morgan.
     Como não voltar? É necessário perder-se. Eu não sei. Tu aprenderás. Eu queria uma indicação para me perder. É necessário não ter segundas intenções, dispor-se a não mais reconhecer nada do que se conhece, dirigir os passos para o ponto mais hostil do horizonte, espécies de vasta extensão de pântanos que mil taludes atravessam em todos os sentidos não se sabe porquê. ..."
[O Vice-Cônsul, Marguerite Duras, Difel]


um excelente primeiro parágrafo de livro, que trago perto desde longa data, hoje revisitado a propósito da proposta Indicação para se perder, de Teresa Coutinho e Constança Carvalho Homem, na Mala Voadora, Porto.

novembro 23, 2012

com saudades do calor e silêncio do majestoso Grand Canyon

[ka@Grand Canyon, South Kaibab trail, Maio 2012] 

... escarpas, despidas pela erosão, revelam marcas fortes do passado, num conjunto de estratos geológicos muito particulares (cor, estrutura, composição, origem...) que permitem revisitar cerca de 2 mil milhões de anos de história. uma das teorias propostas para explicar a formação do canyon, o oceano terá existido quando este pedaço de planeta se encontrava algures na linha do Equador, a 4000 km de distância(!), há 200 mil anos atrás. o que hoje nos é dado a conhecer resulta da dinâmica intrínseca do nosso planeta, da tectónica, e é alvo de teorias que merecem exploração na grandeza do Canyon, como a teoria “DUDE: Deposition, Up-lift, Down cutting, Erosion”.


... as culturas índias (tribos Havasupia, Hualapai, Paiute, Navajo e Hop) remontam a milhares de anos de Canyon, e nos últimos séculos cruzam-se perigosamente com a história de europeus e americanos. há lugares remotos aos quais só pode chegar-se por caminhadas de longas horas, ou pelo rio Colorado. para descobrir, histórias de aventureiros, exploradores, índios, políticos, e mineiros que marcaram a paisagem. exemplo particular,  os aventureiros irmãos Kolb que deixaram um testemunho muito importante sobre a vivência do Canyon no início do século XX, justificando uma visita ao Estúdio de fotografia Kolb instalado com vista privilegiada sobre o trilho Bright Angel, onde podem visionar-se filmes registados com técnicas inovadoras para a época e em condições bastante complicadas, como aquelas oferecidas pelos rápidos do rio Colorado. 

... o Canyon tem muitos outros espectadores para além dos humanos: imponentes veados-mula, inúmeros esquilos; corvos perscrutadores; falcões peregrinos e condores (espécie protegida e em pequeno número) a patrulhar e a identificar restos mortais das suas presas; gaios-azul, corvos, e os impressionantes andorinhões em voos de alta velocidade.

... desafia turistas e amantes da natureza. é visitado por cerca de 4 milhões de visitantes anuais, mas a estatística diz que apenas 1 a 5 % dos visitantes desce abaixo da linha do topo. o tempo médio de visita ao parque natural é de cerca de 6h, mas podendo, fica-se muito mais tempo. visitar o Canyon implica percorrer os seus caminhos, descer e subir os trilhos que recortam as encostas dos desfiladeiros em repetidos zig-zag vencendo a variação brusca de elevação, respeitando a imponência e a severidade que a natureza ali nos apresenta. dispondo de mais tempo pode descobrir-se o rio Colorado em caminhadas mais longas, de alguns dias, passando pelos ranchos que apoiam os caminhantes na base do desfiladeiro, outrora pontos de apoio para mineiros e exploradores.
regressa-se com vontade de voltar, trazendo no bolso o silêncio colorido dos desfiladeiros, pontuado com sussurros de vento, e pequenos pedaços de rocha.

[ka@Grand Canyon, South Kaibab trail, Skeleton Point, Maio 2012]

outubro 12, 2011

casa de ferrugem

no alentejo, há casas de pedra isoladas, abandonadas na margem da estrada, planícies douradas quebradas por memórias imaginadas de famílias de outrora.

de facto, certamente existirão casas abandonadas por todo o portugal, mas no interior, aparentemente deserto, essa imagem de isolamento torna a nostalgia mais forte. quase que se ouvem os sons de outrora a quebrar o silêncio macilento.

à beira Douro, também há casas abandonadas. nos sítios mais inimagináveis, pelo menos para quem os contempla flutuando no rio. esta casota, exibindo a ferrugem de um anexo conquistado ao vazio, faz-me invejar a vista, a luz, o silêncio. que histórias ali se terão perdido e que histórias ainda se reiventarão?

novembro 11, 2008

boca de incêndio


à falta de incêndios para extinguir, a água derrota pacientemente o metal. gota a gota. chapa em pequenas lascas flocos matizadas. chapa entumecida. gangrenada. corroída. transtornada.
[ka@fd.up.porto.pt/nov08]