dezembro 03, 2010

quebrar o gelo

o kasca deixou-se invadir por uma brisa precoce, fria, outonal, silenciosa. como o silêncio a que me apetece devotar. vontade de aprender tanta coisa, mas sinto os neurónios em declínio e as horas racionais do dia a evaporar.

há dias diferentes. uma tarde arrastada para fora do antro vici(ado)/(ante) de trabalho, e dou por mim em mergulho numa nuvem de assador de castanhas de rua, friccionando as palmas das mãos à espera de um cartucho de quentes e boas. bem assadas. dispenso o truque recentemente aprendido do murro certeiro que descasca castanhas num abrir e fechar de olhos. eram mesmo quentes e boas. 

pequenos prazeres de outono, à espera, numa esquina. e uma vontade enorme de os desenhar...

faça-se do silêncio um espaço um pouco mais preenchido:
[Arvo Part, Alina, Spiegel im Spiegel]

(continuo a cruzar-me com espelhos)

outubro 07, 2010

outra Coisa que Nunca [Inês Lourenço]


PARA UM ESPELHO

Cansado de reflectir a imagem alheia,
despenhei-me no soalho
ao encontro da minha.

[in Coisas que Nunca, Inês Lourenço]

outubro 04, 2010

algumas Coisas que Nunca [Inês Lourenço]





SALA PROVISÓRIA


Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.


[in Coisas que Nunca, Inês Lourenço, 2010]

setembro 29, 2010

setembro 19, 2010

setembro...





 o verão já partiu pela linha do horizonte. fica-nos a luminosidade de setembro, tons dourado muito esbatidos, sombras fortes e saudosas. cheiros de mar mais intensos com piados de gaivota  reconquistam a costa, enquanto as mãos, em braços recobertos de algodão branco, reencontram nos bolsos pequenas pedras ou mensagens escritas perdidas. 

não faço a despedida ao verão. eu nunca me despeço. adeus pertence à classe das minhas palavras proibidas, assim como despedir pertence à classe dos verbos proibidos. guardo os óculos no bolso para que se possa cumprimentar o vento. voltarão ao rosto, ampliando os olhos e a inquietação. 

não há tempo para um adeus. apenas a espera pelo outono que chegará breve, vestido a cores fortes. virão o aconchego das lãs, o fresco no rosto, os cabelos molhados.

saudade é a palavra que cobre completamente adeus e despedida.
outono, quando chegas?

[ka07@porto]

setembro 18, 2010

acerca de sapatos [Andreia C. Faria]

a escritora vai espreitando... a mão parece sair cuidadosamente de dentro de um rasgo em folha de papel pardo amarrotada, caída no chao...  tacteia novas sensações. no rasto dos dedos ficam castelos de palavras cheios de vida nos seus  salões...

a escritora volta em força e está na rua.

quero mais!

setembro 07, 2010

numa esquadra...

... o agente (trinta e poucos anos, bem parecido) consulta o meu b.i., completa as entradas no processo de uma certa participação, passou os olhos pela entrada da naturalidade,


évora(sé), évora 
... e pergunta--me:

- évora, (hesitação) é no distrito de (hesitação)(espera)....

... e olha para mim, baralhado. balão de pensamento sobre a minha cabeça:

évora fica no meu alentejo, oh morcão!!


... respondi com alguma condescendência, cinismo, e incredulidade.

setembro 06, 2010

Frankie Chavez

Ibéria [Peripécia Teatro]

agradável surpresa, que parece andar longe dos palcos do porto e arredores. 

a companhia Peripécia Teatro apresentou nos dias 2 e 3 de setembro, em Vila Real, o seu espectáculo Ibéria, a louca história de uma península, espectáculo originalmente produzido em 2004. 


os actores, um português e dois espanhóis, contam de forma engenhosa, artística, cómico-dramática, vários episódios da história comum aos países ibéricos **. são arrojados. não tomam partidos. críticos. não se pode dizer que seja comédia ligeira. mas o espectáculo, que vive dos próprios actores e alguns objectos, poucos, está magnificamente encenado. o movimento do corpo em alguns momentos em tom de performance arrojada e sincronizada, ocupa todo o espaço de um palco vazio. basta-lhes algum trabalho de luz. e o resto
são cerca de 75 minutos bem humorados. 

o texto é resultado da (excelente) criação colectiva dos próprios actores. 

se eles estiverem próximos, não deixem de espreitar o seu trabalho!

** batalha de salado; inês de castro; viriato e numancia; batalha de aljubarrota; descobrimentos; tratado de tordesilhas; dinastia filipina; o milagre.... e muitos bons pequenos "mais"

Janis e a Tartaruga: as palmas são para a Carla Galvão

"Janis e a Tartaruga" esteve em Matosinhos, em reposição, nos dias 2-4 de Setembro.



É verdade que  deixa plateias contentes, a aplaudir em pé, mas a meu ver as felicitações são maioritariamente dirigidas à actriz Carla Galvão pelo seu excelente trabalho. O texto, da autoria de Pedro Pinto e Filipe Pinto, baseia-se numa boa ideia mas falha na sua concretização. É óbvio nas escolhas contextuais e não explora significativamente a personagem e a música de Janis Joplin. A encenação de Luisa Pinto bem que podia dispensar as imagens projectadas. Gostei do carrossel de cadeiras. Gostei da mala. Não era necessário muito mais. A Carla preenche todo o palco.

Já antes, em Mil Olhos de Vidro, fiquei exactamente com a mesma sensação: os irmãos Pedro e Filipe Pinto partiram de uma excelente ideia, mas  falharam a concretização do texto, a concretização da peça.

Ainda assim, Janis e a Tartaruga provocou reacções no público do Constantino Nery. Em especial na cena em que Janis apanha a boleia de uma jovem que acabou de perder o namorado suicida - alguém lá para trás na sala esvaziou e voltou a encher a sua mala, completamente, para não ter de olhar para o palco -  e também na cena da boleia com o jovem branco, de fato preto, Bíblia no colo, e todo o discurso em torno do choque entre brancos e pretos - mas acho que os comentários se dirigiam aos adereços e às vestimentas de Janis na cena.

Enfim...

As minhas palmas foram maioritariamente para a Carla Galvão e é ela que eu felicito.
Continua com o bom trabalho!

agosto 16, 2010

the treat of the day


foi durante uma destas tardes... os dias têm estado quentes, mas também muito húmidos para azar do transeunte (a rondar os 72% de humidade).
o sol convida.
o ar saturado desencoraja.

deixei o buggy azul no parque e refugiei-me no ar condicionado do CoffeeCafe, balde de café para despertar, e uma lime pie para "refrescar". sentada no cantinho da coffee shop, numa mesa e cadeira de pés altos, à janela. lá dentro, a lareira suspensa rodeada de sofás de couro unipessoais, aleatoriamente ocupados por gente relaxada em torno dos seus cafés com livros ou computadores... e logo ao lado, no espaço ainda central da sala, uma parede de vidro a dar suporte a uma cascata de água que se estende do tecto ao chão. relaxante, e o som da água suficientemente refrescante. algumas mesas normais, quadradas, 3 - 4 cadeiras, onde decorriam reuniões de trabalho informais, encontros de amigos, gente a trabalhar nos seus computadores completamente equipados de auscultadores e microfones, estudantes em torno de pastas. mesmo ao meu lado, uma porta comunicante para uma livraria de usados, onde quebrei a promessa de não comprar livros nesta viagem. foi uma boa escapadela aos gatos, ao lago, e à lazeirisse das manhãs e tardes de relax total

agosto 15, 2010

... e sobre os pré-rafaelitas

[The Royalist, de John Everett Millais]

...a partir da wikipedia:


... grupo fundado em Inglaterra em 1848 por Dante Gabriel Rosseti, William Holman Hunt e John Everett Millais e dedicado principalmente à pintura que surge como reacção à arte académica inglesa que seguia os moldes dos artistas clássicos do Renascimento. Inseridos no espírito revivalista romântico da época, os pré-rafaelitas tinham como objectivo devolver à arte a sua pureza e honestidade que consideravam existir na arte medieval do Gótico final e Renascimento inicial. Auto-denominaram-se como pré-rafaelitas, realçando o facto de se inspirarem na arte anterior a Rafael, artista que tanto influenciava a academia inglesa.

(...) o grupo não se revelou homogéneo nas suas produções: Millais e  Holman Hunt dedicaram-se aos temas e problemas da sociedade, cada vez mais materialista, através de representações realistas, enquanto Rossetti e  Edward Burne-Jones dedicaram-se a temas medievais inspirados em Dante, em lendas, cenas religiosas.

Quanto a Adoecer, é Ophelia, pintada por John Everett Millais, e a modelo que a impersonou, que estão na base da obra da escritora Hélia Correia.

John Everett Millais, Ophelia, pormenor, 1851-1852, Londres.

complementos à leitura de Adoecer

One face looks out from all his canvasses,
One selfsame figure sits or walks or leans;
We found her hidden just behind those screens,
That mirror gave back all her loveliness.
A queen in opal or in ruby dress,
A nameless girl in freshest summer greens,
A saint, an angel; -- every canvass means
The same one meaning, neither more nor less.
He feeds upon her face by day and night,
And she with true kind eyes looks back on him
Fair as the moon and joyfull as the light;
Not wan with waiting, not with sorrow dim;
Not as she is, but was when hope shone bright;
Not as she is, but as she fills his dream.

[Christina Georgina Rosseti [1830-1894]]

à procura de Patriarche Park...

... encontro uma obra de criatividade urbanística:

ainda pensei que era distorção do satélite, mas só até começar a ler o nome das ruas.

agosto 12, 2010

Zaha Hadid em East Lansing, MI, USA

os projectos de Zaha Hadid são simplesmente fantásticos. a página oficial apresenta imensas informações sobre os projectos arquitectónicos idealizados pela sua equipa. muitos deles não chegarão a ver a luz do dia, mas indiciam um caminho possível para a arquitectura futurista, muito de encontro ao imaginário da ficção científica. apetece viajar para dentro das maquetas e dos filmes virtuais de Zaha Hadid. pessoalmente, prefiro os projectos de linhas mais fluidas.

Michigan State University irá marcar o seu campus com uma das criações de Hadid - ainda que não seja uma das suas criações mais espectaculares - e que irá albergar o Eli and Edythe Broad Art Museum.
o edifício será construído em aço e betão, e os exteriores serão em metal e vidro. as construções podem ser acompanhadas ao longo dos meses a partir de webcam, mas o edifício já pode ser visitado virtualmente:



boas-vindas da puki

a puki necessitou de alguns dias, uma boa escovagem e alguma preguiça matinal para me dar as devidas boas vindas ronronadas... estava eu nas minhas leituras quando ela chegou, enroscou-se no meu colo, ronronando, espreguiçando, ora virando-se para um lado, ora virando-se para o outro, "cardando" entre posições. um mimo.

vejam-se as diferenças entre 2007 (esquerda) e 2010 (direita):




agosto 09, 2010

regresso aos livros

(...)
Os Siddal não seriam gente para tal espectáculo. Responderiam com puxões de orelhas às perguntas dos filhos. No entanto, tinham eles próprios a compreensão de que a severidade não bastava para salvar as crianças. Existia uma espécie de impulso para as trevas que era fornecimento do diabo mas contra o qual a fé cristã nada podia. Lizzie, que andava muito de olhos baixos, parecia estar especialmente em perigo.
(...)
[in Adoecer, de Hélia Correia]

agosto 08, 2010

cat styling

o (bo)neco era, em 2007, um gato peludo, mimoso, recatado e tímido. foi recentemente à tosquia. vejam-se as diferenças:



mas não foi uma tosquia cega à personalidade do gato! o styling permitiu manter a sua personalidade de gatarrão de 5 anos, mantendo o seu espírito mimoso, e peludo.



quanto ao recatado e tímido, esqueçam! a operação de styling revelou uma nova atitude e personalidade. o neco marca a sua presença e imponência, é brincalhão, é mimalhão, preguiça qb. mas é um gato libertado!

agosto 07, 2010

sugestão para a CP

in consideration of all passengers please limit your cell phone usage to one minute ... or less!
(Michigan Flyer, numa viagem de cerca de duas horas)

nota: não houve um único telefone a tocar ou vozes a tentarem introduzir-se nos minúsculos microfones dos referidos aparelhitos.

agosto 05, 2010

a tecla "G"


uso este teclado praticamente há um ano. não utilizo muito a retro-iluminação. mas com a mosquitada e o calor, é sem dúvida uma ferramenta útil para escrita tardia.

claramente, a tecla G parece ser preterida na azáfgama da escrita - agora imiscuiu-se aqui o g no meio da azáfama - não o apago. a bem escrever, neste texto apenas necessitaria de uma única utilização desta letra. quantas entradas existirão no nosso dicionário com a letra inicial G? qual a fracção da sua utilização?

G
de gaiola, gaveta, graxa, gume, gomo, gargalhada (tem 2!), gengibre (também!), gin, gola-de-tartaruga.....