março 31, 2009

our daily bread [N. Geyrhralterm]

AVISO
esta kasca poderá
ferir susceptibilidades

[clicar na imagem para webpage do projecto]

passou recentemente na RTP2, tarde e a boas horas, o documentário de Nikolaus Geyrhralterm Our Daily Bread (O Nosso Ganha-Pão). um documentário para alimentar discussão. filmado como observador anónimo de uma série de processos industrias de produção de alimento, quer animal quer vegetal, mostra uma realidade que deve ser desconhecida à maioria das pessoas. eu não conhecia, embora já me tivessem descrito algumas das "técnicas" aqui filmadas. não há locução, não há mensagem verbalizada. apenas essa viagem silenciosa, a dar espaço para a reacção/interpretação pelo observador.

não quero sugerir a visualização do documentário como uma apologia do vegetarianismo. seria demasiado reducionista. o planeta tem um número suficiente de habitantes para justificar a necessidade destes processos industriais de produção. mas o tratamento dos animais de forma tão insensível não me deixa nada indiferente. e há tanto excesso e desperdício, e vê-se com tanta frequência a desvalorização do produto acabado...
Ficha Técnica: Duração: 92M Realização: Nikolaus Geyrhralterm



março 17, 2009

[Manuel Alvess]


Manuel Alvess deixou-nos. chegou-me a notícia por telefone.
[notícia no Expresso]

já por aqui deixei registadas as minhas impressões e um pouco do
sentimento e surpresa suscitados em Serralves. recupero agora mais
três imagens dessa exposição. este belo instrumento, já antes mencionado,
uma régua de escala customizada, e estes dois jarros metafísicos.
fico a imaginar Alvess por detrás de um espelho a descobrir outras
dimensões nas realidade do quotidiano, essas que se nos escapam
por entre a pressa dos dias, por entre os dedos.


[ka08@serralves, Propreté de Paris, 1997-2007]


[ka08@serralves / esq: Ecrou papillon nº3, 1969-90; dir: De la rivalité mimétique et du meurtre fondateur, 2007]



março 07, 2009

noticiado na TVI, hoje

[aqui] Polémica no Brasil

igreja católica excomunga menor de 9 anos por abortar de gémeos.

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não sei o que é mais polémico nesta história, tão bem sumarizada nesta frase de rodapé:
- uma menor engravidar com 9 anos?
- uma menor passar por um aborto com 9 anos?
- a igreja católica excomungar uma menor?
- a igreja católica ser cega à realidade de uma menor de 9 anos?
- a obsessão da igreja católica com o aborto?

e o que não está no rodapé:
- que a menor ficou grávida vítima de violação
- que o violador da menor era o seu padrasto
- que a menor era abusada pelo padrasto desde os 6 anos ...
- que a igreja católica parece ser indiferente a tudo isto...

que diferença me faria se, fosse eu menor de 9 anos, fosse excomungada pela igreja católica? que raio de Deus se preocupa mais com o acto de abortar, do que com a integridade física, psicológica, emocional, de uma menor, miúda, de 9 anos, sua pressuposta seguidora? qual o significado, nos dias que correm, da excomungação? não há causas "melhores" para a igreja católica investir as suas energias?

a Polémica, sr. jornalista, não está no Brasil. a polémica devia intitular-se: Excomunhão Polémica!


só por curiosidade, amanhã, dia 8, é dia da Mulher. portanto,
também é dia dessa menor de 9 anos, excomungada pela igreja católica por abortar de gémeos...



março 04, 2009

café da manhã...

(passe a publicidade, pacotes de açucar distribuídos pela Torrié)

... acompanhado de mensagens subliminares:

março 03, 2009

paella




ingredientes:

-400g carne de porco
-800g frango
-1dl azeite
-100g bacon
-100g chouriço
-1 cebola
-2 dentes de alho
-1 folha de louro
-100g camarão c/cabeça, descascado
-300g mexilhão
-100g ervilhas
-300g arroz
-6dl de água
-1 cubo caldo galinha
-sal, pimenta e açafrão qb






preparação:

- alourar os pedaços de frango e porco no azeite, com um pouco de sal e pimenta. depois adicionar cebola e alho picados e a folha de louro. quando a cebola ficar transparente, adicionar o camarão e o mexilhão. em seguida adicionar ervilhas e o arroz, dar-lhes calor envolvendo a mistura com cuidado para não pegar. açafrão a gosto. deitar o caldo de galinha, envolver.
- aquecer o forno a cerca de 200ºC.
- quando o caldo ferver na paellera, mudá-la para o forno, onde deverá ficar cerca de 15min, até o líquido evaporar.

a imagem final não fica aqui, para surpresa da magnífica iguaria que sairá do forno...

fevereiro 26, 2009

transcendências

há cidades que nos acolhem e re-acolhem a cada regresso. locais onde se volta sem de lá ter saído. ruas onde o cérebro comuta automaticamente para o sentido correcto dos passos. gestos apreendidos, rostos que se reconhecem mesmo sem palavras trocadas. fica sempre a sensação de agenda não-cumprida, coisas adiadas para a próxima visita. desta vez, além trabalho, do wet-british-kentish weather, do frio e do aconchego, Canterbury foi a solenidade do serviço religioso Evensong, com o cair da noite, na nave central da Catedral da Cantuária. Brutal!

não se descreve a madeira a reverberar sob os pés em consonância com os sons do orgão de tubos que, de tão graves, eram quase imperceptíveis ao ouvido; o corpo envolvido pelos sons sussurados de uma cadência plagal cantada a quatro ou mais vozes pelo coro da catedral, terminando um dos hinos do serviço religioso, espalhando-se pelas arcadas, naves, pelo espaço solene tão majestosamente pensado por comuns mortais; não se explica o arrepio. de olhos fechados ou abertos, mostras do génio humano transcendido a penetrar-nos o corpo/alma. chame-se a tudo isto obra de inspiração divina. eu contraponho a ideia de Homem auto-divinizado. por uma segunda vez, brutal.

[ka@canterbury,uk_09]

suspiro de noz*

as nozes de Trás-os-Montes têm monopolizado as minhas refeições matinais.
diz o anúncio: o que é nacional é bom!
e são mesmo. recomendam-se!

o resto dos dias tem sido uma correria.
nem tempo para vir aqui deitar umas kascas...



* que bela ideia de sobremesa...

fevereiro 18, 2009

a propósito de palavras (algumas difíceis), a propósito de O'Neill



Animais Doentes

Animais doentes as palavras
Também elas
Vespas formigas cabras
De trote difícil e miúdo
Gafanhotos alerta
Pombas vomitadas pelo azul
Bichos-de-conta bichos que fazem de conta
Pequeníssimas pulgas uma sílaba só
Lagartos melancólicos
Estúpidas galinhas corriqueiras
Tudo tão doente tão difícil
De manejar de lançar de provocar
De reunir
De fazer viver

Ou então as orgulhosas
Palavras raras
Plumas de cores incandescentes
Altos gritos no aviário
E o branco sem uso
Imaculado
De certas aves da solidão

Para dizer
Queria palavras tão reais como chamas
E tão precárias
Palavras que vivessem só o tempo de dizer a sua parte
No discurso de fogo
Logo extintas na combustão das próximas
Palavras que não esperassem
Em sal ou em diamante
O minuto ridículo precioso raro
De sangrar a luz a gota de veneno
Cativa das entranhas ociosas.

[Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca]



["O'Neill à Mesa - 15/2, Gato Vadio - Porto", Marita Ferreira]

fevereiro 11, 2009

boa forma de começar o dia*...

*... ainda que o dia tenha sido ontem!
[de curto email inesperado e simpático]

janeiro 31, 2009

Safety [Lúcia David]

que faz uma lâmina de barbear dentro de uma caixa de metal de bolachas maria, na companhia de um pequeno urso, caixa com uma pequena janela para uma máquina de calcular electrónica?...


Safety, Lúcia David (2008)
[urso, caixa bolacha maria, lâmina, foto máquina de calcular]



era uma vez uma menina, diziam-na rufia, por passar os seus dias, silenciosa, a brincar pelos quintais. o seu brinquedo preferido era um pequeno urso de peluche que uma tia, também dita rufia por estar sempre meio ausente, lhe oferecera numa das suas aparições relâmpago. a menina sabia que as tardes pelo quintal estavam a chegar ao fim. a escola estava prestes a começar, e com ela as responsabilidades dos trabalhos de casa, o fim das brincadeiras. para marcar o evento decidiu-se por um lanche com o seu amigo urso - o colargol. sorrateiramente levou a caixa de bolachas-maria escondidas no fundo da prateleira da despensa, agarrou no seu porquinho mealheiro, um molho de revistas - dá sempre jeito ter papel por perto... já em plena clareira apercebeu-se que com a caixa das bolachas vinha agarrada um conjunto de recargas das lâminas de barbear do seu pai. a cada bolacha partilhada com colargol a menina entretinha-se a fazer as revistas em farripas! cortes precisos, intencionais, outros ladeando as lindas figuras de manequim em pose, ou então de outros pequenos objectos. arranjava novos amigos para o colargol. quando as bolachas se acabaram, à mesa já estava sentada uma grande família de barbies, tuchas, barriguitas e afins, parecia um autêntico batalhão feminista, munido de um interessante conjunto de ferramentas laminadas pela gillete nas revistas: faqueiros, jogos de toalhas, conjuntos completos de maquillage, perfumes, canetas e adereços, viaturas e máquinas de calcular. Tudo e todas prontos para lutar pelos direitos da sua anfitriã! quando tocou a sineta do “monte” a pequena percebeu que não lhe restava muito tempo. o reencontro com as tardes do quintal teria de esperar meses, talvez anos. efectivamente, ao fim de uns bons anos a lata foi desenterrada entre raízes de uma azinheira. Foi no dia em que a pequena, agora crescida, sentiu o desamparo da perda e foi impelida a reconquistar a segurança desses tempos de criança. lá dentro apenas o cheiro ligeiramente bafiento de terra e bolachas maria, um urso de peluche sorridente, a foto de catálogo da máquina de calcular que ainda hoje usa na sua secretária de trabalho. e uma lâmina. a segurança de saber que poderia terminar quando assim o entendesse. ainda não era esse o momento. encostou-se à azinheira, com o urso colargol no seu colo, ambos contemplando o fim de dia a queimar a linha do horizonte. [ka@ago08]



janeiro 27, 2009

e.e. cummings, revisitado




somewhere i have never traveled,gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will enclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skillfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

e.e. cummings
... de W [ViVa] (1931)

[ viii, em xix poemas, Assírio e Alvim]

janeiro 23, 2009

porto de aconchego


[ka@castelo de queijo&rua do almada_jan09]

janeiro 21, 2009

Há, mas são VERDES...


na minha vida profissional nunca me encontrei em situação de remuneração a recibos verdes. pode dizer-se que tenho sorte. não obstante, não sou insensível à realidade que me rodeia, que contempla as gerações que me são próximas, tanto para baixo, como para cima. se dúvidas ou falta de esclarecimento eu tinha, foram brutalmente tiradas num debate promovido pelo então recém formado FERVE - Fartos dEstes Recibos VErdes. com testemunhos a abarcar funcionários de Estado, pois claro..., pagos a Recibos Verdes. 

é-me claro que as gerações mais novas encontram-se em condições de vínculo laboral muito precárias. pessoas que se esfalfam durante as 24h do dia para chegar ao fim do mês e conseguir pagar as contas. tempo? só para sobreviver?! há aqui qualquer coisa de profundamente errado...

assim, vou fazendo o que posso para tentar fomentar alguma mudança.

está aberta a recolha de assinaturas para a petição Há... mas são verdes! 
vamos lá forçar a discussão e as mudanças... AssinemoS!


da petição:

(...) O recibo verde tem servido quase exclusivamente para a contratação de trabalhadores efectivos por períodos superiores a um ano que a qualquer momento podem ser dispensados sem qualquer tipo de protecção social.

Existe no nosso país um milhão de portugueses que para trabalhar abdicou de subsidio de férias, de subsidio de Natal, de assistência na doença, que vive sem perspectiva de reforma.

Acresce a esta realidade o facto de nunca ter existido na nossa História uma geração tão qualificada. Nunca existiram em Portugal tantos licenciados, tantos pós graduados, tantos mestres, tantos doutorados.

A ausência de condições mínimas de protecção social inerente ao regime de contrato de prestação de serviços origina, de forma inevitável, a emancipação tardia da Juventude Portuguesa, colocando-a assim de forma continuada sob a dependência dos seus familiares.

Os signatários consideram que a utilização abusiva e desvirtuada do recibo verde , promoveu uma realidade injusta. Num mesmo mercado de emprego, existe quem trabalhe com estabilidade e usufrua de protecção social por uma vida, por outro lado, existe quem trabalhe todos os meses, sem direitos sociais, com um horizonte que termina no dia 28 de cada mês. (...)

janeiro 20, 2009

tropeção num piano embriagado

nao sei o que mais me fascina neste vídeo... à procura de outro, tropeço nele. 32 anos de distância obrigam a um certo revivalismo estético e social, mas, note-se, o modelo talk show não é assim tão diferente dos actuais, talvez até mais "fresco". a vestimenta de época tem o seu correspondente nos tempos que correm, ainda que com cores um pouco mais populares. o humor de tom waits tão espontâneo... mesmo que tudo o resto, fumar, beber, extorquir dinheiro seja uma mera encenação... e the piano has been drinking não é a melhor música para ser tocada num talk show. é música para bar intimista, em fim de noite, quando a melancolia se instala e o álcool fermenta as ausências e as recordações. música para recordar tempos de bairro alto. mas ainda assim, tom waits, não resisto partilhar este momento, à distância de 32 anos (quando eu ainda brincava com madeiras...) 

so real

janeiro 16, 2009

A Orfã

[Café Lusitano, Porto, produção Teatro Aramá]

Texto e Encenação: Tó Maia
Direcção de Actores: Nuno Simões
Música Original: Cristina Bacelar

Espectáculo de Café- Teatro
em 4 capítulos, 1 em cada 4ª feira de Janeiro (09)


O espectáculo recria, num tom satírico, o universo "telenovelesco" afrontado em clichés: o protótipo das suas personagens, os seus intermináveis conflitos e encravadas soluções, as suas gordas tristezas e magras alegrias... servirá grandes doses de sentimentalismo até ao enjoo... Basta. Haja quem ria...
[do flyer de divulgação]



acaso

caminhavas na minha direcção. eu conduzia no sentido oposto ao teu destino. impossível não notar-te. passada pensativa, o peso dos ombros, projectando a linha de braços a terminar nos bolsos, impulsionando o movimento. o cachecol, escuro, curtindo o ritmo da caminhada, o reflexo dos teus olhos reservado ao pavimento. quatro segundos depois um reflexo no espelho, enquanto conduzia no sentido oposto ao teu destino.


janeiro 15, 2009

Mercador de Veneza

[Shakespeare, TNSJ, até 18/Jan]


tradução:Daniel Jonas
versão cénica: Ricardo Pais,
Daniel Jonas
encenação: Ricardo Pais

o Mercador de Veneza, produção do Teatro Nacional S. João, está em reposição e é para não perder. pela qualidade do trabalho desenvolvido por todo o elenco e produção, pelas temáticas abordadas, e até de certa forma pelo momento que se vive actualmente na faixa de Gaza e o respectivo e histórico confronto de culturas, costumes e estereótipos.

visualmente, a encenação funciona muito bem: minimalista nos elementos em palco, elegante no figurino e na luz. as vozes, um problema particular: a produção optou pela utilização de microfones, o que pode justificar-se pela dimensão da sala, mas que baralha completamente a percepção do espaço e da localização dos personagens, sensação agravada por muitas das cenas serem projectadas para o fundo do palco e não termos acesso ao rosto dos actores.

uma questão, que terá eventualmente resposta quando me cruzar com o texto original, prende-se com a segunda parte da peça: a história vista e vivida de Belmonte, complemento à primeira parte, localizada em Veneza. na segunda parte houve uma quebra de ritmo, nalguns momentos atenuada por efeitos visualmente mesmerizantes. a opção de interpretação da revelação do papel de Pórcia e Nerissa no desfecho do drama central pareceu-me demasiado dramática para o que senti que o momento pedia, o momento da vitória da argúcia feminina.

não perder!

[do caderno de sala,TNSJ]

janeiro 08, 2009

what i find i can keep...


[This Moment, Melissa Etheridge]

janeiro 05, 2009

Juan Muñoz: uma retrospectiva

[Serralves, até 24 de Fevereiro 09]

ironia ternurenta nos sorrisos das figuras humanas de Juan Muñoz...

quem poderia alguma vez sorrir tendo o seu corpo suspenso pela língua, girando no espaço num bailado harmonioso com o seu par? que ajuntamento humano e tão uniforme pode suscitar tantos sorrisos? que mão será dilacerada ao procurar apoio no corrimão onde, dissimulada, uma lâmina reluzente a espera? ... ... ...
ouvem-se histórias sussurradas pelo espaço, a despoletar contentamento, tensão, comoção, e até ternura.

prenderam-me os olhos:



Hotel Declerq I/II (1986)
Back Drawing (1992)



Stuttering Piece (1993)"wha... wha... what did you say? I didn´t say anything. you never say an... anything anything, but you keep coming, you keep coming back to it"


Shadow and Mouth (1996)Conversation Piece (1996)



The Crossoroads Cabinets (1999)